Quando as tardes pareciam
maiores
quando o fim do dia
era o fim do dia

Laura Liuzzi

 

A maré subiu a cinco palmos dos meus pés, que estavam colados de areia e cerveja derrubada pelo meu jeito de organizar as coisas na mesinha branca. Cada unidade custa perto de vinte reais e a lua apareceu clara no farol do carro que quase me atropelou. Lugar de prédios que parecem raivosos quando meu ombro encostou na portaria na tentativa de fugir do furto do bicicletinha. Aprendi a andar sem rodinhas na véspera de meu aniversário de doze anos. Caí em uma semana inteira. Quinta-feira, também. Dia de pastel, tomates novos e abacate fresco. Mesmo assim, o final de semana veio com festa e quentão. O frio impregnado de roupas gastas em dias que eu consegui olhar melhor para a fotografia na estante comprada em doze vezes sem juros. Instagram. Tiro foto das prateleiras e minha tia risonha e lúcida mesmo depois de tantos dias engarrafada na rotina da gente. Café, trabalho, almoço, trabalho, café, trabalho, jantar e domir, para trabalhar. E antes, trânsito, metrô, catraca, várias. Horas para ir e voltar para si mesmo. Para a gente. Deixar a rua na calçada lá de fora. Distante. Sinto falta dos domingos de churros e sorvete no parque de diversões que só fomos uma vez. Calendário na parede ao lado geladeira que não descongela no automático. Nosso jeito.

Ficávamos o sábado inteiro nos passos soltos para todo canto. Nunca pensei que morar com a tia dava tanta vontade de rir. E de entristecer. Contava do filho dela que parou de estudar para ser esqueitista. Túnel, carros, acidente. Mas lembra da Kombi branca de passear de roda gigante? Passava em cima da ponte. Viaduto. Via o horizonte e o sol gritando. Eu e ele brigávamos. Sim. Por bobagem do tamanho de um algodão doce. Por causa da bicicleta, da praia. Salgado era a pipoca, tia. Não vem jantar? O trabalho vai acabar esquecendo de você. Em outra vida? Os boletos estão presos na porta da geladeira. A televisão vendia brinquedos, bonecas, espadas de herói nos intervalos da novela. Foi aí que ele conheceu o esqueite. Alucinou. Descia as ruas, o corrimão das escadas, o bairro todo gostava. É. Vieram os últimos capítulos. Todo mundo queria saber o final daquela história. Eu gostava mais dos pacotes de viagens, aquele naviozão, céu limpo, lindo, mar azul, música de Djavan, queria ver o pôr do sol. Faróis.

Cinza-céu. Detergente de lavar louça e barulhar pratos no escorredor. Esponja. Passa, espuma e atravessa. Volta e repassa. Devagar e circular. Fingimos não chorar. Espumamos. Ela e eu. Copos, talheres, faca de cortar pão. Disse ainda que o sentido é o contrário, que o trabalho rouba o sentimento do mundo. Disse dos dias em Olinda, dos tubarões de Boa Viagem e da avenida Agamenon Magalhães. Foi aí que abri as cortinas, as janelas, a porta e peguei o tapete da sala para varrer no quintal. Domingo. Bati com raiva. Vassourada. Ela passou pelo batente. Abraço enlaçado. Prometi comprar uma Kombi branca no próximo ano. Da gente ir no parque de diversões. Café. O cheiro frequentou à tarde.


Capa de Rabada, livro de Alessandro Araujo.
Capa de Rabada, livro de Alessandro Araujo.

Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A pintura que acompanha o texto é de autoria da artista Laureline Delahousse.

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Um comentário sobre ldquo;Muganga: “Detergente”, uma coluna de Alessandro Araujo

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